domingo, 1 de março de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Terrorismo financeiro

SÃO PAULO - Os adeptos do modelo hegemônico vigente, caracterizado pelo predomínio da "Pátria Financeira", usavam a seguinte muleta retórica: "É, há uma baita crise, mas convém não esquecer que, nos cinco anos anteriores a ela, o mundo conheceu um ciclo inédito de crescimento".
Inédito não foi, conforme Vinicius Torres Freire já demonstrou nesta mesma Folha. O pior é que crescimento tampouco era, conforme se deduz do seguinte trecho de coluna de Paul Krugman no "New York Times" (a coluna anterior, não a que foi reproduzida ontem pela Folha):
"Na semana passada, o Federal Reserve [o BC norte-americano] publicava os resultados da mais recente pesquisa sobre finanças dos consumidores, informe trienal sobre os ativos e as dívidas das famílias norte-americanas. A conclusão é que, basicamente, não se criou nenhuma riqueza desde o começo do novo milênio: a riqueza líquida da família norte-americana média, descontada a inflação, é agora menor do que em 2001".
Fica, portanto, claríssimo que a farra financeira só criou ilusão. A muleta retórica dos fundamentalistas das finanças tinha (ou tem) um subtexto, mais ou menos assim:
"Não vamos regulamentar demais o jogo financeiro porque seria limitar as possibilidades de crescimento inerentes às inovações". Bom, se é falsa a muleta, o subtexto é igualmente falso. Mas os governos do mundo todo ainda hesitam em apertar devidamente esse cassino, que continua fazendo terrorismo em meio à retração.
Ou alguém acha que há fatos novos que justifiquem o recuo da Bolsa de Nova York ao nível de 12 anos atrás? Ou o recuo em Tóquio a 26 anos atrás? Não, é só reação à ameaça de o governo assumir algum controle (nem o controle total, diga-se) de bancos como o Citi.
Insistem em socializar o risco e privatizar o prejuízo.
Estatização
"A estatização dos bancos dos EUA é o maior revés que o neoliberalismo poderia enfrentar. Ver a nação que mais propagou e difundiu a doutrina da autorregulamentação do mercado e da mínima intervenção cogitar se tornar a principal acionista de bancos privados para evitar o aprofundamento da crise é a melhor prova que poderíamos ter da inconsistência da doutrina neoliberal. Curiosamente, é justamente a solidez dos bancos estatais brasileiros, cuja privatização foi cogitada em alguns momentos, que vem sendo apontada como trunfo do país para sobreviver à crise."
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Bernard Madoff operava no Brasil
Uma pergunta que não quer calar: será que o governo, a Justiça, o Ministério Público, e a Polícia Federal... Será que ninguém vai investigar os indícios claros de que o esquema do norte-ameriano Bernard Madoff operava no Brasil, não legalmente, com remessa de recursos de caixa dois ou ainda com envio ilegal de dinheiro para aplicação no exterior?
A suspeita de que bancos e investidores brasileiros estejam envolvidos com o esquema de Madoff, foi levantada pelo jornal inglês Financial Times. Aos que não se recordam, o ex-presidente da bolsa eletrônica Nasdaq, o norte-ameriano Bernard Madoff, foi preso no ano passado, após provocar um rombo de US$ 50 bilhões em todo o mundo.
Dada a importância do caso, como explicar o silêncio dos que perderam bilhões de dólares? Fala-se em 15 bilhões de dólares, o que não é um absurdo, afinal 3 ou 4 já estão identificados e assumiram participação no esquema do enganador americano.
Ao contrário do que acontece por aqui, em muitos países - como nos Estados Unidos - os perdedores estão indo à Justiça acionar não só o Madoff, mas os bancos e instituições responsáveis pelas operações, avaliação de risco, custódia, aval e seguro, e mesmo controle e regulação do setor financeiro.
E aqui? Nada vai acontecer?
A suspeita de que bancos e investidores brasileiros estejam envolvidos com o esquema de Madoff, foi levantada pelo jornal inglês Financial Times. Aos que não se recordam, o ex-presidente da bolsa eletrônica Nasdaq, o norte-ameriano Bernard Madoff, foi preso no ano passado, após provocar um rombo de US$ 50 bilhões em todo o mundo.
Dada a importância do caso, como explicar o silêncio dos que perderam bilhões de dólares? Fala-se em 15 bilhões de dólares, o que não é um absurdo, afinal 3 ou 4 já estão identificados e assumiram participação no esquema do enganador americano.
Ao contrário do que acontece por aqui, em muitos países - como nos Estados Unidos - os perdedores estão indo à Justiça acionar não só o Madoff, mas os bancos e instituições responsáveis pelas operações, avaliação de risco, custódia, aval e seguro, e mesmo controle e regulação do setor financeiro.
E aqui? Nada vai acontecer?
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
O alerta da Islândia para o mundo
Ralf Hoppe
Da Der Spiegel
Primeiro veio a crise financeira, depois o alvoroço: a Islândia é o primeiro país europeu a sofrer os efeitos plenos da crise financeira global. Isto é uma amostra do que está reservado para o restante do mundo?
Está nevando e em breve escurecerá de novo. A noite começa aqui por volta das 4 horas da tarde, seguida por uma longa, longa noite - uma noite islandesa aqui em Reykjavík, latitude 64 graus norte, bem ao sul do Círculo Polar Ártico. Se os países pudessem exportar escuridão, então a Islândia não teria com que se preocupar.
Kristin Gunnarsdottir estaciona seu pequeno carro diante de sua casa modesta no distrito de Garbabae da cidade, caminha cuidadosamente pelo caminho escorregadio até sua porta da frente e bate suas botas no chão para tirar a neve. Ela está com vontade de tomar café quente e se sentar diante da lareira. Ela acaba de retornar de seu novo e exaustivo passatempo - realizar manifestações "Nós temos que salvar a Islândia", ela diz.
Nos últimos três meses, Kristin Gunnarsdottir passou seus dias no centro de Reykjavík. Armada com uma panela e uma colher, ela e outros manifestantes assumiram posição diante do Parlamento islandês, o Althing, acompanhados por entre poucas centenas ou -como costuma ser o caso- dois mil outros manifestantes. Recentemente, ela diz, a ira das pessoas era tamanha que a multidão esteve prestes a invadir o Althing, arrastar para fora os membros do governo e enforcá-los na imensa árvore de Natal. A árvore não está mais lá.
"Alguns manifestantes a incendiaram", ela diz. "Foi uma fogueira e tanto."
As coisas estão esquentando na Islândia em consequência da crise financeira.
Kristin Gunnarsdottir pega uma garrafa térmica cheia de café, liga a TV e está prestes a se sentar ao lado da lareira quando algo a detém. Ela fica parada lá, atônita, e aponta para a tela.
Ela tem mais de 40 anos, é ruiva e alegre. Ela era jornalista de TV, mas agora é escritora. Desde o início da crise financeira, ela está entre os líderes de uma revolta como a Islândia nunca viu antes, uma revolução vinda de baixo que visa varrer tudo o que existiu antes.
"Incrível", ela diz, apontando para a televisão.
A ministra das Relações Exteriores, Ingibjörg Solrun Gisladottir, está sendo entrevistada. Ela é da Aliança Social Democrática de esquerda, o menor dos dois partidos da coalizão, e parece exausta enquanto olha para a câmera e explica que só continuará apoiando o governo caso uma série de exigências seja atendida. Então aparecem políticos que dizem que as exigências não serão atendidas.
"É isso", diz Kristin, "eu acho que não teremos um governo em breve - é melhor assim".
Poucas horas depois, um governo que antes parecia inabalável entra em colapso. O mais forte dos dois parceiros da coalizão, o conservador Partido da Independência, governou o país por quase 18 anos. Este partido liderou um governo que foi responsável por aproximadamente 315 mil islandeses que estão relacionados de uma forma ou de outra uns aos outros e que são, em sua maioria, um povo bem loiro, bem gentil, educado e agradável. Agora, a crise financeira e os escândalos que ela trouxe à tona jogaram a Islândia em turbulência e caos. Na superfície, a vida continua, mas todos estão abalados até as entranhas por um imenso sentimento de incerteza. De certa forma, a Islândia é uma bola de cristal que revela o futuro do restante da Europa.
A Islândia se tornou uma espécie de laboratório da crise de crédito: um país pequeno, compacto, estreitamente ligado à economia internacional, sem qualquer pára-choque de segurança. É um lugar onde os efeitos de uma crise são sentidos intensamente.
As primeiras ondas de demissões começaram a varrer o país. Todo mundo conhece alguém que já perdeu seu emprego ou que perderá em breve, todo mundo conhece alguém que conhece - e odeia - um banqueiro de investimento. Os bares mais bacanas no centro de Reykjavík estão visivelmente vazios, como o "101" e o "b5", onde os profissionais bem-sucedidos do setor financeiro ainda curtiam festas selvagens durante as noites da metade de verão de 2008. A imagem do país foi seriamente manchada. "Como parecemos agora aos olhos do mundo?" diz Kristin. "Como maníacos financeiros, os jogadores da Europa."
Onde estão - e, mais importante, quem são - os culpados deste estrago? Ninguém sabe ao certo. Desde o colapso dos três maiores bancos do país ao longo dos últimos três meses, o governo não apresentou respostas e ainda não se deu ao trabalho de lançar uma investigação séria.
Isso espalhou rumores por todo o país. Segundo uma história, os islandeses mais ricos deixaram o país há meses, com suas malas cheias de dinheiro ao embarcarem em um jato particular com destino a Portugal. Supostamente eles retornarão em breve para cobrir seus rastros. A coroa islandesa perdeu um terço de seu valor frente ao euro em um ano e permanece volátil. Ninguém nas lojas sabe qual é atual taxa de câmbio. Um governo interino minoritário de esquerda, liderado pela recém-nomeada primeira-ministra Johanna Sigurdardottir, agora está encarregado do país até que novas eleições possam ser realizadas, e é muito possível que o Movimento Verde-Esquerda, com sua inclinação marxista, desponte como o partido mais forte.
Em nenhuma outra parte do mundo, ao que parece, a crise é tão visível quanto na Islândia, em nenhum outro lugar ela é tão concreta. O pequeno tamanho do país também permite que todo cidadão possa calcular facilmente quanta dívida foi acumulada em seu nome. Antes de serem nacionalizados, os três maiores bancos acumularam dívidas de US$ 166 bilhões, o equivalente a 10 vezes o produto interno bruto da Islândia. Isso representa um adicional de US$ 527 mil para cada homem, mulher e criança. Um encanador ou pescador islandês que tem esposa e dois filhos para alimentar, repentinamente se veria com uma dívida de mais US$ 2 milhões. Como a atual geração poderá pagar essa dívida? Os economistas antecipam inflação de dois dígitos e preveem que a economia encolherá 10%.
'O trabalho de limpeza será um banho de sangue'
Novos nomes estão repentinamente nos lábios de todos, agora elogiados como heróis e salvadores diante do desastre, apesar de terem sido ignorados até recentemente.
É um fim de tarde escuro e gelado enquanto Vilhjalmur Bjarnason segue de carro até seu escritório na universidade, em Saemundargata, para trabalhar um pouco mais. Ele está com um ar carrancudo apesar de ser um dos homens mais procurados do país - elogiado, entrevistado, citado em blogs, revistas e programas de televisão.
Vilhjalmur, um ex-banqueiro de 56 anos, trabalha como professor de macroeconomia da universidade, atua como presidente da Associação dos Pequenos Investidores e é um atleta amador dedicado. Ultimamente, ele anda extremamente irritado porque previu tudo o que está acontecendo agora. Ele sempre permaneceu politicamente neutro por acreditar que um economista deve preservar sua independência - apesar disso ter colocado freios em sua carreira. Agora ele está sendo considerado para se tornar o novo presidente do banco central ou conselheiro do ministro das finanças. "Nós colocamos nossa economia nas mãos de criminosos", ele diz, "e o trabalho de limpeza será um banho de sangue".
Ele conhece muito bem alguns dos perpetradores. "Eles foram meus alunos", ele diz. Após concluírem seus estudos, eles correram para o setor bancário, "e foi quando as coisas saíram do controle e saímos de um caminho sólido".
Por séculos, os islandeses viveram na pobreza e em dificuldades: casas de fardo de palha, miséria e epidemias eram fatos da vida. Então, diz Vilhjalmur, eles aprenderam a explorar seu ambiente natural singular, represando cachoeiras para gerar energia e usando a água quente dos gêiseres como fonte de calor. Segundo Vilhjalmur, as coisas poderiam ter continuado dessa forma -mas a Islândia foi infectada pela ganância.
Kristin Gunnarsdottir e muitos de seus companheiros de luta veem a decisão de lançar um dos maiores projetos hidrelétricos como o principal fator que promoveu a orgia de tomada de empréstimo. Ela diz que o início da construção da usina de força de Karahnjukar, que promoveria a produção de alumínio, foi espertamente divulgada ao redor do mundo. "De repente a Islândia era a dica quente para os investidores e estava recebendo altas classificações de crédito."
A coroa islandesa valorizou 20% e, apesar do banco central ter elevado as taxas de juros para esfriar o mercado, um crescente número e empresas e cidadãos islandeses prontamente tomaram empréstimos em moedas estrangeiras, em ienes, dólares e o que quer que os bancos pudessem arrumar para eles. Esses empréstimos eram relativamente baratos desde que o valor de sua própria moeda continuasse subindo. Pouco antes do crash, o banco central contava com reservas de apenas US$ 5,1 bilhões e era incapaz de exercer seu papel de supervisor dos bancos do país. O capital fluía para o país porque a Islândia parecia incrivelmente segura.
"Foi quando as holdings podiam ser encontradas em toda parte", diz Vilhjalmur. "E holdings são campos minados."
Foi muito fácil, ele diz. Alguns poucos empresários ambiciosos se uniram a banqueiros e jovens recém-formados em administração e negócios para combinar seu dinheiro e contatos. Eles levantariam, digamos, 10 mil euros e era criada uma holding. Então eles iam até um dos três grandes bancos, que eram ex-bancos estatais que foram privatizados. Os magos financeiros eram amigos dos proprietários dos bancos, mas os bancos ainda eram considerados sólidos. Com um capital de 10 mil euros, eram tomados empréstimos 100 vezes maiores que esse valor, em outras palavras, teoricamente 1 milhão de euros. Depois, 990 mil euros eram pagos a eles e eles compravam ações desses mesmos bancos islandeses, que por sua vez também tomavam empréstimos e compravam ações de empresas e redes de varejo. "Foi quando a realidade entrou em ação", diz Vilhjalmur. "Antes disso tudo era virtual."
Tudo o que os fundadores das holdings tinham que fazer era esperar, talvez um ano, até o preço de suas ações subirem, já que o modelo de negócios islandês era visto como uma dica quente. "Repentinamente suas ações valiam 1,5 milhão de euros, menos os juros de, digamos, 100 mil euros, o que os deixava com 400 mil euros em lucros", explica Vilhjalmur.
Vilhjalmur diz que esse frenesi de tomada de empréstimo tomou conta de pessoas de todas as classes da sociedade islandesa. Mas foram as pessoas comuns que ficaram com as dívidas, enquanto os magnatas mantiveram seus novos iates.
E quem são esses magnatas?
"Eu tenho uma lista de nomes aqui", diz Vilhjalmur, digitando em seu laptop. "Trinta homens e três mulheres. Eles foram os principais culpados. Eu posso provar. Nós poderíamos recuperar bastante dinheiro. Eles precisam ser levados a julgamento."
Isso acontecerá?
"Eu não sou um policial", ele diz com um olhar irritado em seu rosto. "E também não sou um otimista."
No microcosmo que é a Islândia, as dificuldades financeiras provavelmente podem ser rastreadas mais precisamente do que em qualquer outro lugar: como cresceu a ganância, quão facilmente meios de vida podem ser destruídos, como a revolta popular pode irromper - e quem é responsável, quem sofre com o fardo da crise e como uma sociedade pode encontrar lentamente seu caminho para uma nova fundação moral.
Kristin, a escritora, está sentada diante da lareira. "Nós acreditamos nos blefistas, nós depositamos confiança demais nas pessoas", ela diz, balançando seus cabelos ruivos. "Agora nós temos que desenvolver uma cultura de desconfiança saudável."
Tradução: George El Khouri Andolfato
Da Der Spiegel
Primeiro veio a crise financeira, depois o alvoroço: a Islândia é o primeiro país europeu a sofrer os efeitos plenos da crise financeira global. Isto é uma amostra do que está reservado para o restante do mundo?
Está nevando e em breve escurecerá de novo. A noite começa aqui por volta das 4 horas da tarde, seguida por uma longa, longa noite - uma noite islandesa aqui em Reykjavík, latitude 64 graus norte, bem ao sul do Círculo Polar Ártico. Se os países pudessem exportar escuridão, então a Islândia não teria com que se preocupar.
Kristin Gunnarsdottir estaciona seu pequeno carro diante de sua casa modesta no distrito de Garbabae da cidade, caminha cuidadosamente pelo caminho escorregadio até sua porta da frente e bate suas botas no chão para tirar a neve. Ela está com vontade de tomar café quente e se sentar diante da lareira. Ela acaba de retornar de seu novo e exaustivo passatempo - realizar manifestações "Nós temos que salvar a Islândia", ela diz.
Nos últimos três meses, Kristin Gunnarsdottir passou seus dias no centro de Reykjavík. Armada com uma panela e uma colher, ela e outros manifestantes assumiram posição diante do Parlamento islandês, o Althing, acompanhados por entre poucas centenas ou -como costuma ser o caso- dois mil outros manifestantes. Recentemente, ela diz, a ira das pessoas era tamanha que a multidão esteve prestes a invadir o Althing, arrastar para fora os membros do governo e enforcá-los na imensa árvore de Natal. A árvore não está mais lá.
"Alguns manifestantes a incendiaram", ela diz. "Foi uma fogueira e tanto."
As coisas estão esquentando na Islândia em consequência da crise financeira.
Kristin Gunnarsdottir pega uma garrafa térmica cheia de café, liga a TV e está prestes a se sentar ao lado da lareira quando algo a detém. Ela fica parada lá, atônita, e aponta para a tela.
Ela tem mais de 40 anos, é ruiva e alegre. Ela era jornalista de TV, mas agora é escritora. Desde o início da crise financeira, ela está entre os líderes de uma revolta como a Islândia nunca viu antes, uma revolução vinda de baixo que visa varrer tudo o que existiu antes.
"Incrível", ela diz, apontando para a televisão.
A ministra das Relações Exteriores, Ingibjörg Solrun Gisladottir, está sendo entrevistada. Ela é da Aliança Social Democrática de esquerda, o menor dos dois partidos da coalizão, e parece exausta enquanto olha para a câmera e explica que só continuará apoiando o governo caso uma série de exigências seja atendida. Então aparecem políticos que dizem que as exigências não serão atendidas.
"É isso", diz Kristin, "eu acho que não teremos um governo em breve - é melhor assim".
Poucas horas depois, um governo que antes parecia inabalável entra em colapso. O mais forte dos dois parceiros da coalizão, o conservador Partido da Independência, governou o país por quase 18 anos. Este partido liderou um governo que foi responsável por aproximadamente 315 mil islandeses que estão relacionados de uma forma ou de outra uns aos outros e que são, em sua maioria, um povo bem loiro, bem gentil, educado e agradável. Agora, a crise financeira e os escândalos que ela trouxe à tona jogaram a Islândia em turbulência e caos. Na superfície, a vida continua, mas todos estão abalados até as entranhas por um imenso sentimento de incerteza. De certa forma, a Islândia é uma bola de cristal que revela o futuro do restante da Europa.
A Islândia se tornou uma espécie de laboratório da crise de crédito: um país pequeno, compacto, estreitamente ligado à economia internacional, sem qualquer pára-choque de segurança. É um lugar onde os efeitos de uma crise são sentidos intensamente.
As primeiras ondas de demissões começaram a varrer o país. Todo mundo conhece alguém que já perdeu seu emprego ou que perderá em breve, todo mundo conhece alguém que conhece - e odeia - um banqueiro de investimento. Os bares mais bacanas no centro de Reykjavík estão visivelmente vazios, como o "101" e o "b5", onde os profissionais bem-sucedidos do setor financeiro ainda curtiam festas selvagens durante as noites da metade de verão de 2008. A imagem do país foi seriamente manchada. "Como parecemos agora aos olhos do mundo?" diz Kristin. "Como maníacos financeiros, os jogadores da Europa."
Onde estão - e, mais importante, quem são - os culpados deste estrago? Ninguém sabe ao certo. Desde o colapso dos três maiores bancos do país ao longo dos últimos três meses, o governo não apresentou respostas e ainda não se deu ao trabalho de lançar uma investigação séria.
Isso espalhou rumores por todo o país. Segundo uma história, os islandeses mais ricos deixaram o país há meses, com suas malas cheias de dinheiro ao embarcarem em um jato particular com destino a Portugal. Supostamente eles retornarão em breve para cobrir seus rastros. A coroa islandesa perdeu um terço de seu valor frente ao euro em um ano e permanece volátil. Ninguém nas lojas sabe qual é atual taxa de câmbio. Um governo interino minoritário de esquerda, liderado pela recém-nomeada primeira-ministra Johanna Sigurdardottir, agora está encarregado do país até que novas eleições possam ser realizadas, e é muito possível que o Movimento Verde-Esquerda, com sua inclinação marxista, desponte como o partido mais forte.
Em nenhuma outra parte do mundo, ao que parece, a crise é tão visível quanto na Islândia, em nenhum outro lugar ela é tão concreta. O pequeno tamanho do país também permite que todo cidadão possa calcular facilmente quanta dívida foi acumulada em seu nome. Antes de serem nacionalizados, os três maiores bancos acumularam dívidas de US$ 166 bilhões, o equivalente a 10 vezes o produto interno bruto da Islândia. Isso representa um adicional de US$ 527 mil para cada homem, mulher e criança. Um encanador ou pescador islandês que tem esposa e dois filhos para alimentar, repentinamente se veria com uma dívida de mais US$ 2 milhões. Como a atual geração poderá pagar essa dívida? Os economistas antecipam inflação de dois dígitos e preveem que a economia encolherá 10%.
'O trabalho de limpeza será um banho de sangue'
Novos nomes estão repentinamente nos lábios de todos, agora elogiados como heróis e salvadores diante do desastre, apesar de terem sido ignorados até recentemente.
É um fim de tarde escuro e gelado enquanto Vilhjalmur Bjarnason segue de carro até seu escritório na universidade, em Saemundargata, para trabalhar um pouco mais. Ele está com um ar carrancudo apesar de ser um dos homens mais procurados do país - elogiado, entrevistado, citado em blogs, revistas e programas de televisão.
Vilhjalmur, um ex-banqueiro de 56 anos, trabalha como professor de macroeconomia da universidade, atua como presidente da Associação dos Pequenos Investidores e é um atleta amador dedicado. Ultimamente, ele anda extremamente irritado porque previu tudo o que está acontecendo agora. Ele sempre permaneceu politicamente neutro por acreditar que um economista deve preservar sua independência - apesar disso ter colocado freios em sua carreira. Agora ele está sendo considerado para se tornar o novo presidente do banco central ou conselheiro do ministro das finanças. "Nós colocamos nossa economia nas mãos de criminosos", ele diz, "e o trabalho de limpeza será um banho de sangue".
Ele conhece muito bem alguns dos perpetradores. "Eles foram meus alunos", ele diz. Após concluírem seus estudos, eles correram para o setor bancário, "e foi quando as coisas saíram do controle e saímos de um caminho sólido".
Por séculos, os islandeses viveram na pobreza e em dificuldades: casas de fardo de palha, miséria e epidemias eram fatos da vida. Então, diz Vilhjalmur, eles aprenderam a explorar seu ambiente natural singular, represando cachoeiras para gerar energia e usando a água quente dos gêiseres como fonte de calor. Segundo Vilhjalmur, as coisas poderiam ter continuado dessa forma -mas a Islândia foi infectada pela ganância.
Kristin Gunnarsdottir e muitos de seus companheiros de luta veem a decisão de lançar um dos maiores projetos hidrelétricos como o principal fator que promoveu a orgia de tomada de empréstimo. Ela diz que o início da construção da usina de força de Karahnjukar, que promoveria a produção de alumínio, foi espertamente divulgada ao redor do mundo. "De repente a Islândia era a dica quente para os investidores e estava recebendo altas classificações de crédito."
A coroa islandesa valorizou 20% e, apesar do banco central ter elevado as taxas de juros para esfriar o mercado, um crescente número e empresas e cidadãos islandeses prontamente tomaram empréstimos em moedas estrangeiras, em ienes, dólares e o que quer que os bancos pudessem arrumar para eles. Esses empréstimos eram relativamente baratos desde que o valor de sua própria moeda continuasse subindo. Pouco antes do crash, o banco central contava com reservas de apenas US$ 5,1 bilhões e era incapaz de exercer seu papel de supervisor dos bancos do país. O capital fluía para o país porque a Islândia parecia incrivelmente segura.
"Foi quando as holdings podiam ser encontradas em toda parte", diz Vilhjalmur. "E holdings são campos minados."
Foi muito fácil, ele diz. Alguns poucos empresários ambiciosos se uniram a banqueiros e jovens recém-formados em administração e negócios para combinar seu dinheiro e contatos. Eles levantariam, digamos, 10 mil euros e era criada uma holding. Então eles iam até um dos três grandes bancos, que eram ex-bancos estatais que foram privatizados. Os magos financeiros eram amigos dos proprietários dos bancos, mas os bancos ainda eram considerados sólidos. Com um capital de 10 mil euros, eram tomados empréstimos 100 vezes maiores que esse valor, em outras palavras, teoricamente 1 milhão de euros. Depois, 990 mil euros eram pagos a eles e eles compravam ações desses mesmos bancos islandeses, que por sua vez também tomavam empréstimos e compravam ações de empresas e redes de varejo. "Foi quando a realidade entrou em ação", diz Vilhjalmur. "Antes disso tudo era virtual."
Tudo o que os fundadores das holdings tinham que fazer era esperar, talvez um ano, até o preço de suas ações subirem, já que o modelo de negócios islandês era visto como uma dica quente. "Repentinamente suas ações valiam 1,5 milhão de euros, menos os juros de, digamos, 100 mil euros, o que os deixava com 400 mil euros em lucros", explica Vilhjalmur.
Vilhjalmur diz que esse frenesi de tomada de empréstimo tomou conta de pessoas de todas as classes da sociedade islandesa. Mas foram as pessoas comuns que ficaram com as dívidas, enquanto os magnatas mantiveram seus novos iates.
E quem são esses magnatas?
"Eu tenho uma lista de nomes aqui", diz Vilhjalmur, digitando em seu laptop. "Trinta homens e três mulheres. Eles foram os principais culpados. Eu posso provar. Nós poderíamos recuperar bastante dinheiro. Eles precisam ser levados a julgamento."
Isso acontecerá?
"Eu não sou um policial", ele diz com um olhar irritado em seu rosto. "E também não sou um otimista."
No microcosmo que é a Islândia, as dificuldades financeiras provavelmente podem ser rastreadas mais precisamente do que em qualquer outro lugar: como cresceu a ganância, quão facilmente meios de vida podem ser destruídos, como a revolta popular pode irromper - e quem é responsável, quem sofre com o fardo da crise e como uma sociedade pode encontrar lentamente seu caminho para uma nova fundação moral.
Kristin, a escritora, está sentada diante da lareira. "Nós acreditamos nos blefistas, nós depositamos confiança demais nas pessoas", ela diz, balançando seus cabelos ruivos. "Agora nós temos que desenvolver uma cultura de desconfiança saudável."
Tradução: George El Khouri Andolfato
sábado, 31 de janeiro de 2009
Brasil da volto por cima
Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos
Matéria interessantíssima do Rolk Kuntz - que acompanha Davos desde o início -, menos pelo que descreve de hoje, mais pelo que conta do deslumbramento geral dos empresários brasileiros com o Ministro da Fazenda argentino, Domingo Cavallo, autor do maior desastre da história econômica argentina.
O chanceler Celso Amorim qualificou como "mau sinal" a inclusão de uma emenda contra a importação de ferro e aço no pacote fiscal enviado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Pela cláusula, não terá acesso aos benefícios fiscais anticrise quem realizar obras de infraestrutura com material importado. "Tudo isso é preocupante", disse o ministro, "porque não há doença mais contagiosa que o protecionismo."
Nenhum governo, argumentou Amorim, deve ter a ilusão de tomar uma medida protecionista sem provocar reações. Além disso, os países maiores devem ter liderança no combate às barreiras comerciais.
Ainda não se pode, no entanto, julgar a tendência da nova administração americana, ressalvou Amorim, porque a cláusula "buy American" (compre produtos americanos) foi introduzida por um parlamentar, na Câmara de Representantes. O projeto, com esse dispositivo, já foi aprovado na Câmara e ainda poderá ser revisto no Senado.
O presidente Barack Obama, lembrou Amorim, conversou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da semana, e mencionou a necessidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais. "Acho que foi sincero", disse o chanceler.
Em 16 de março, o presidente Lula irá a Nova York para um evento sobre biocombustíveis, promovido pelo Wall Street Journal. Há possibilidade, segundo ele, de um primeiro contato com Obama na visita, mas isso dependerá de um acerto.
Os dois temas - como evitar maior protecionismo e como retomar a Rodada Doha - serão discutidos hoje por negociadores de vários países, num hotel de Davos, em encontro coordenado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Trata-se de fato de um só assunto, porque, se as negociações não forem retomadas e concluídas, o risco de ações protecionistas será muito maior.
A União Europeia, observou Amorim, já anunciou a decisão de elevar a tarifa de importação de produtos lácteos. "É um péssimo sinal", acrescentou. A crise internacional cria um ambiente propício ao fechamento das economias e à multiplicação de medidas prejudiciais ao comércio.
Esse risco torna mais urgente a reativação das negociações e o revigoramento dos compromissos contra o protecionismo. Não basta cuidar da superação da crise financeira, disse o ministro. Esse detalhe, segundo ele, não foi considerado na elaboração do programa do Fórum Mundial: muitas sessões foram dedicadas à crise das finanças e poucas ao comércio.
Se as negociações globais forem retomadas, acrescentou o ministro, o correto será partir dos pontos acordados até 2008 e consolidados no chamado pacote de julho. O valor desse pacote é muito grande, segundo Amorim. Não teria sentido, segundo ele, jogar fora todas essas conquistas e começar novamente do zero.
Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos Em 1999, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação
Depois de dez anos, a volta por cima: o Brasil pôde apresentar-se ontem, num almoço paralelo à reunião do Fórum Econômico Mundial, como "parte da solução, e não do problema". Essas palavras foram ditas pelo executivo-chefe do Banco Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino.
Como num jantar há dez anos, o governo brasileiro foi representado pelo ministro de Relações Exteriores. Em janeiro de 1999, no lugar de Celso Amorim, o chanceler era Luiz Felipe Lampreia. O real estava desvalorizado, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação parecia ameaçar as conquistas do ajuste implantado em 1994. A moeda brasileira, havia dito na véspera o secretário adjunto do Tesouro americano, Lawrence Summers, deixara de ser real para tornar-se virtual: real.com. A piada fez sucesso em Davos.
Desta vez, a crise começou nos Estados Unidos e manifestou-se pouco depois na Europa, sem poupar nem sequer os maiores bancos suíços. No Brasil, disse Villela Marino, não houve subprime nem excesso de risco nos empréstimos. Os padrões de segurança dos bancos brasileiros - relação entre capital e aplicações - excedem os padrões de Basileia, fixados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).
O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, participou do almoço. Também discursou, e começou comparando os fundamentos macroeconômicos do Brasil e dos Estados Unidos, para afirmar a maior solidez das condições brasileiras. Há dez anos, num jantar em ambiente de velório, um empresário brasileiro pediu ao então ministro da Economia da Argentina Domingo Cavallo a receita para salvar o Brasil.
Cavallo atendeu com visível prazer e dissertou longamente sobre como o governo argentino havia encontrado a receita do crescimento com estabilidade. Três anos depois, a paridade imaginária entre o peso e o dólar seria rompida, de forma desastrosa, e o Tesouro argentino daria um calote histórico.
Naquela noite, o desastre mais visível era o do Brasil, atingido pelas ondas de choque da crise russa. Lampreia aguentou os desatinos durante um bom tempo, mas acabou perdendo a paciência e, com a polidez possível, enquadrou Cavallo e os empresários brasileiros deslumbrados.
Ontem, o presidente da Petrobrás, além de comparar os fundamentos macroeconômicos de Brasil e Estados Unidos, ainda se permitiu comentar as prováveis dificuldades do presidente Barack Obama para atender às expectativas internacionais em relação às suas medidas. Depois, falou sobre os planos do Brasil no setor de energia e sobre a contribuição dos biocombustíveis para a preservação ambiental. O País, lembrou, deverá investir US$ 2,8 bilhões na produção de etanol e de biodiesel nos próximos cinco anos.
O chanceler Amorim começou comentando o título oficial do almoço, inscrito no programa do Fórum. Há 30 anos, disse o ministro, o título seria algo como "Brasil, país do futuro", ou "Brasil, gigante adormecido". Mas o evento, desta vez, foi rotulado como "Brazil, power broker". Não há tradução direta: "power broker" é alguém influente, levado em conta em decisões importantes, capaz de modificar relações de poder. Em resumo, um ator relevante.
O Brasil, disse Amorim, poderá ser menos afetado que outros países pela crise porque iniciou um programa de investimentos antes do agravamento da situação, uma espécie de política anticíclica antecipada. Mencionou também como uma das vantagens o poder de consumo resultante das políticas sociais. Externamente, o país se tornou menos vulnerável, de acordo com o ministro, porque diversificou seus parceiros comerciais e depende menos dos Estados Unidos (cerca de 14% das das exportações brasileiras).
Mas a posição de power broker, afirmou o ministro, depende em grande parte do trabalho de integração sul-americana e tem sido exercido, por exemplo, na mediação em casos de conflito na região. Sobre a ausência do presidente brasileiro, uma explicação de mercado: "Há mais demanda de Lula do que oferta de Lula". O presidente, argumentou, já esteve três vezes em Davos e neste ano decidiu participar do Fórum Social em Belém.
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Matéria interessantíssima do Rolk Kuntz - que acompanha Davos desde o início -, menos pelo que descreve de hoje, mais pelo que conta do deslumbramento geral dos empresários brasileiros com o Ministro da Fazenda argentino, Domingo Cavallo, autor do maior desastre da história econômica argentina.
O chanceler Celso Amorim qualificou como "mau sinal" a inclusão de uma emenda contra a importação de ferro e aço no pacote fiscal enviado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Pela cláusula, não terá acesso aos benefícios fiscais anticrise quem realizar obras de infraestrutura com material importado. "Tudo isso é preocupante", disse o ministro, "porque não há doença mais contagiosa que o protecionismo."
Nenhum governo, argumentou Amorim, deve ter a ilusão de tomar uma medida protecionista sem provocar reações. Além disso, os países maiores devem ter liderança no combate às barreiras comerciais.
Ainda não se pode, no entanto, julgar a tendência da nova administração americana, ressalvou Amorim, porque a cláusula "buy American" (compre produtos americanos) foi introduzida por um parlamentar, na Câmara de Representantes. O projeto, com esse dispositivo, já foi aprovado na Câmara e ainda poderá ser revisto no Senado.
O presidente Barack Obama, lembrou Amorim, conversou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da semana, e mencionou a necessidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais. "Acho que foi sincero", disse o chanceler.
Em 16 de março, o presidente Lula irá a Nova York para um evento sobre biocombustíveis, promovido pelo Wall Street Journal. Há possibilidade, segundo ele, de um primeiro contato com Obama na visita, mas isso dependerá de um acerto.
Os dois temas - como evitar maior protecionismo e como retomar a Rodada Doha - serão discutidos hoje por negociadores de vários países, num hotel de Davos, em encontro coordenado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Trata-se de fato de um só assunto, porque, se as negociações não forem retomadas e concluídas, o risco de ações protecionistas será muito maior.
A União Europeia, observou Amorim, já anunciou a decisão de elevar a tarifa de importação de produtos lácteos. "É um péssimo sinal", acrescentou. A crise internacional cria um ambiente propício ao fechamento das economias e à multiplicação de medidas prejudiciais ao comércio.
Esse risco torna mais urgente a reativação das negociações e o revigoramento dos compromissos contra o protecionismo. Não basta cuidar da superação da crise financeira, disse o ministro. Esse detalhe, segundo ele, não foi considerado na elaboração do programa do Fórum Mundial: muitas sessões foram dedicadas à crise das finanças e poucas ao comércio.
Se as negociações globais forem retomadas, acrescentou o ministro, o correto será partir dos pontos acordados até 2008 e consolidados no chamado pacote de julho. O valor desse pacote é muito grande, segundo Amorim. Não teria sentido, segundo ele, jogar fora todas essas conquistas e começar novamente do zero.
Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos Em 1999, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação
Depois de dez anos, a volta por cima: o Brasil pôde apresentar-se ontem, num almoço paralelo à reunião do Fórum Econômico Mundial, como "parte da solução, e não do problema". Essas palavras foram ditas pelo executivo-chefe do Banco Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino.
Como num jantar há dez anos, o governo brasileiro foi representado pelo ministro de Relações Exteriores. Em janeiro de 1999, no lugar de Celso Amorim, o chanceler era Luiz Felipe Lampreia. O real estava desvalorizado, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação parecia ameaçar as conquistas do ajuste implantado em 1994. A moeda brasileira, havia dito na véspera o secretário adjunto do Tesouro americano, Lawrence Summers, deixara de ser real para tornar-se virtual: real.com. A piada fez sucesso em Davos.
Desta vez, a crise começou nos Estados Unidos e manifestou-se pouco depois na Europa, sem poupar nem sequer os maiores bancos suíços. No Brasil, disse Villela Marino, não houve subprime nem excesso de risco nos empréstimos. Os padrões de segurança dos bancos brasileiros - relação entre capital e aplicações - excedem os padrões de Basileia, fixados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).
O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, participou do almoço. Também discursou, e começou comparando os fundamentos macroeconômicos do Brasil e dos Estados Unidos, para afirmar a maior solidez das condições brasileiras. Há dez anos, num jantar em ambiente de velório, um empresário brasileiro pediu ao então ministro da Economia da Argentina Domingo Cavallo a receita para salvar o Brasil.
Cavallo atendeu com visível prazer e dissertou longamente sobre como o governo argentino havia encontrado a receita do crescimento com estabilidade. Três anos depois, a paridade imaginária entre o peso e o dólar seria rompida, de forma desastrosa, e o Tesouro argentino daria um calote histórico.
Naquela noite, o desastre mais visível era o do Brasil, atingido pelas ondas de choque da crise russa. Lampreia aguentou os desatinos durante um bom tempo, mas acabou perdendo a paciência e, com a polidez possível, enquadrou Cavallo e os empresários brasileiros deslumbrados.
Ontem, o presidente da Petrobrás, além de comparar os fundamentos macroeconômicos de Brasil e Estados Unidos, ainda se permitiu comentar as prováveis dificuldades do presidente Barack Obama para atender às expectativas internacionais em relação às suas medidas. Depois, falou sobre os planos do Brasil no setor de energia e sobre a contribuição dos biocombustíveis para a preservação ambiental. O País, lembrou, deverá investir US$ 2,8 bilhões na produção de etanol e de biodiesel nos próximos cinco anos.
O chanceler Amorim começou comentando o título oficial do almoço, inscrito no programa do Fórum. Há 30 anos, disse o ministro, o título seria algo como "Brasil, país do futuro", ou "Brasil, gigante adormecido". Mas o evento, desta vez, foi rotulado como "Brazil, power broker". Não há tradução direta: "power broker" é alguém influente, levado em conta em decisões importantes, capaz de modificar relações de poder. Em resumo, um ator relevante.
O Brasil, disse Amorim, poderá ser menos afetado que outros países pela crise porque iniciou um programa de investimentos antes do agravamento da situação, uma espécie de política anticíclica antecipada. Mencionou também como uma das vantagens o poder de consumo resultante das políticas sociais. Externamente, o país se tornou menos vulnerável, de acordo com o ministro, porque diversificou seus parceiros comerciais e depende menos dos Estados Unidos (cerca de 14% das das exportações brasileiras).
Mas a posição de power broker, afirmou o ministro, depende em grande parte do trabalho de integração sul-americana e tem sido exercido, por exemplo, na mediação em casos de conflito na região. Sobre a ausência do presidente brasileiro, uma explicação de mercado: "Há mais demanda de Lula do que oferta de Lula". O presidente, argumentou, já esteve três vezes em Davos e neste ano decidiu participar do Fórum Social em Belém.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
FMI vê risco de crise global prolongada e distúrbios sociais em vários países

A economia global pode cair em uma crise prolongada, espalhando tensões sociais, se os governos não expandirem e implementarem os pacotes de estímulo prometidos, afirmou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn ontem. O crescimento está desacelerando na China, à medida que a economia global sofre uma queda sem precedentes de produção e ruma para uma recessão, elevando os riscos de mais distúrbios civis como os vistos na Grécia, acrescentou.
Sem urgência por parte dos governos, o início da recuperação econômica global no fim de 2009 e início de 2010 pode ser adiada. “Muito ainda precisa ser feito e, se esse trabalho não funcionar, será difícil evitar uma longa crise.”
Ele prevê protestos violentos se espalhando se o sistema financeiro não for reorganizado para beneficiar a todos e não apenas a elite. Strauss-Kahn pede que 2% do PIB mundial sejam usados em pacotes para relançar a economia do planeta, cerca de US$ 1,2 trilhão. “2009 será um ano muito difícil e os dados que iremos divulgar em janeiro serão provavelmente piores que os atuais”, disse. “A possibilidade de uma recessão global está mesmo diante de nós.”
No dia 6 de novembro, o FMI previu que os países ricos sofreriam uma queda de 0,3% em seu PIB em 2009, a primeira contração simultânea de todas as economias desenvolvidas desde 1945. Já o mundial cresceria apenas 2,2%. Para o Brasil, a taxa de crescimento de 3% prevista para 2009 deve ser revista.
Ele antecipou projeções globais que devem ser anunciadas em janeiro sobre a China, país deve crescer apenas 5% em 2009. Pelos cálculos do Banco Mundial, só para gerar postos de trabalho para o número crescente de pessoas que deixam o campo para trabalhar nas cidades, a China precisa crescer 5%.
No relatório atual do FMI, a China teria uma alta de 8,5% de seu PIB em 2009, já abaixo da média da última década. Em 2008, o país irá crescer 9,7%.
ESTÍMULO
Para o FMI, embora incertezas limitem a eficácia de algumas medidas de política fiscal, os pacotes que governos em todo o mundo estão adotando podem ter impacto positivo, mas precisam ser mantidos por alguns meses. “Precisamos de apoio e mecanismos de estímulo que sejam grandes e diversificados e que possam ser utilizados por um ou dois trimestres”, pediu Strauss-Kahn.
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- erivaldo
- Servidor do sistema penitenciário paulista, formado Gestão de Segurança Pública – UNIBAN/SP, é estudante de Iniciação Cientifica como o tema: Mapeamento dos Programas socioeducativos de semiliberdade no Brasil pela mesma Univercidade É Editor do Blog SERVIDORES PENITENCIÁRIO DO ESTADO DE SÃO PAULO e Fundador, colaborador do blog APGSP- ASSOCIAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE GESTÃO DE SEGURAÇA PÚBLICA